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Com o objetivo de unificar e fortalecer a língua portuguesa em todo o mundo, entrou em vigor no dia 1º de janeiro deste ano o Acordo Ortográfico, reforma que irá afetar 0,5% do vocabulário usado no Brasil. Em Portugal, "Pátria-mãe" da língua, o número sobe para 1,6%. O acordo terá prazo de adaptação de quatro anos e a partir de janeiro de 2013 será o único em vigência. Até lá, tanto a regra anterior quanto a nova terão validade.
A reforma, que vem sendo discutida desde os |
anos 80, ganhou adeptos e inimigos declarados. Os que são a favor usam como principal argumento o fato de o acordo facilitar a escrita em documentos oficiais de órgãos internacionais como a ONU, por exemplo. Esse é o caso da coordenadora do curso de letras da Faculdade METROCAMP, Jauranice Cavalcanti, que salienta o fato da mudança não atingir o modo de falar das pessoas. "Nesse sentido, a língua portuguesa de cada um dos países continua com suas características e particularidades. Ninguém legisla sobre a língua, ela é do povo. Como diz um professor meu, os portugueses continuarão a dizer ‘gelado’ e nós, brasileiros, sorvete", comenta.
A coordenadora da METROCAMP acredita que haverá tempo para os estudantes se habituarem às novas regras. "Os livros didáticos serão os primeiros a realizar as alterações. Não haverá problemas para os alunos lerem e compreenderem os textos. Até hoje, lemos sem dificuldade a carta de Caminha", acrescenta Jauranice, citando o documento histórico escrito por Pero Vaz de Caminha para o rei D. Manuel I, em 1500, onde ele registrou suas primeiras impressões sobre a terra que viria a ser o Brasil.
Com a reforma ortográfica, as letras “k”, “w” e “y” voltam a fazer parte do alfabeto, que passa a ter 26 letras. O trema será eliminado da escrita, enquanto acentos e hífens ganham novas aplicações. Segundo a coordenadora, esta última deve ser a reforma mais impactante. "As novas regras procuram simplificar o emprego do hífen, mas há muitas alterações e algumas parecem estranhas aos olhos de quem já se habituara com as regras anteriores", avalia.
Entre os principais críticos do acordo está o Professor Pasquale Cipro Neto, colunista do jornal "Folha de S. Paulo" e apresentador do programa "Nossa Língua" da TV Cultura. Pasquale acredita que o governo brasileiro precipitou-se ao colocar as novas regras em vigor, classificando-as como "exageradas" e "desnecessárias”. "Imagina o título: 'Trânsito pesado para São Paulo'. Muda tudo. O título fica dúbio", exemplificou o professor em palestra realizada No Mato Grosso do Sul*, com relação ao desaparecimento do acento diferencial na palavra "para" (verbo). Jauranice discorda. "As palavras não aparecem isoladas, em estado de dicionário, mas em textos, situadas, contextualizadas. Não haverá problemas, portanto", afirma.
Reforma em Portugal
As maiores resistências à reforma vieram de Portugal, justamente o país que deve ter as mudanças mais significativas. As consoantes mudas (c e p), tradicionais no idioma português falado na Europa e na África, desaparecem. “Acção” vira “ação”; “baptismo” vira “batismo”. A palavra "húmido", por exemplo, passa a ser "úmido", como no Brasil.
Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor Leste são os outros países de língua portuguesa que também irão se adequar ao acordo.
Braile também sofre mudança
A escrita em braile, sistema tátil utilizado por deficientes visuais, também sofrerá mudanças com a reforma ortográfica da língua portuguesa. No braile, as palavras são escritas letra a letra. Cada letra tem até seis pontinhos em alto relevo e ela se forma com um número e uma disposição própria. Se “infra-estrutura” vira “infraestrutura”, a palavra em braile deixa de ter 15 caracteres e passa a ter 14, já que o hífen tem suas saliências características.
Academia lança dicionário
Para sanar as dúvidas quanto à reforma, a Academia Brasileira de Letras (ABL) lançou a quinta edição do “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa” (Volp), livro de 887 páginas, com 349. 737 vocábulos adaptados à nova ortografia. O livro já pode ser encontrado nas livrarias.
Ao contrário de um dicionário, o Volp traz apenas a classe gramatical das palavras e a forma correta de pronuncia. O primeiro a receber o livro foi o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.
* Trecho publicado no Portal MS em 19 de novembro de 2008. |
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