Abril/Maio 2009 - Edição 02  
     
 
 
             
   
 
 
   
 
Uma crise anunciada
 
   
   
 

Na edição nº 14 do IBTA News (novembro/2007), escrevi um artigo intitulado Abalo nas
Finanças Internacionais: simples turbulência ou início de uma crise?
Agora que
temos a resposta à pergunta inicial, outras questões emergem.

Em primeiro lugar, qual é o papel de governos e organismos multilaterais na coordenação
das políticas macroeconômicas e no sistema financeiro internacional? Muitos se apressarão
em responder: regulação, fiscalização e outros “ões” que se mostraram inócuos no episódio recente. Convém lembrar que o homem que salvou o sistema financeiro internacional do
colapso total se chama Gordon Brown, atual Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha. O que ele
fez para proporcionar tal feito? Simples: contrapôs-se à teoria econômica dominante e
estatizou bancos ingleses que estavam à beira da insolvência. Discípulos de Francis
Fukuyama foram obrigados a “reiniciar a História” e admitir que os mercados estão longe
da eficiência outrora alardeada.

Assim, assistimos ao 2º Fim da História: o fim das ideologias de direita e dos supostos
mercados autorregulados. O Estado reassume a dianteira no processo de recuperação e
Barack Obama puxa um 2º New Deal de US$787 bilhões! Provavelmente insuficientes para alavancar uma economia de US$14 trilhões. Suscita-se a 2ª questão: qual será a
configuração da nova ordem financeira internacional que parece estar se desenhando? Ou
seja, é possível um sistema financeiro internacional que não seja subordinado às finanças especulativas em detrimento da economia real?

Terceira questão: quando esta crise acaba? Relatórios contábeis do primeiro trimestre nos
EUA, Europa e Japão devem causar uma nova onda de pânico entre o fim de março e
meados de abril. Novas quedas nas bolsas de valores podem levar a uma segunda onda
de demissões, gerando um círculo vicioso. Se isso ocorrer, o fim da crise estaria mais longe
do que imaginam
os mais pessimistas.

Para nós, brasileiros, o que interessa é: como essa crise nos afetará? Na edição 11 do IBTA
News (dezembro/2006), chamei a atenção para o fato de que nossa política monetária
persegue uma miragem inflacionária, causada pelos preços administrados. Apesar dos
efeitos recessivos da deflação que se abatem sobre o mundo e parecem contagiar o Brasil, levando analistas a cogitar a Selic em um dígito até o final de 2009, é pouco provável uma
taxa de juros em patamares tão baixos por um longo período.

Explico: quando os IGP’s anualizados corrigirem preços essenciais, tais como energia
elétrica, pedágio, telecomunicações e aluguéis, haverá uma pressão de custos sobre
indústria que tenderá a ser repassada ao longo das cadeias produtivas e chegará aos
preços finais. Talvez 2009 seja um ano atípico em termos de política monetária por causa
da recessão global. Mas os custos represados, em algum momento, serão repassados
ao consumidor, o que obrigará o Banco Central a elevar a Selic. Fato que, lembremos,
somente foi adiado no último trimestre de 2008 por causa da atual crise.

* Fabrício Pessato é coordenador do curso de Gestão Financeira da Faculdade IBTA, em Campinas.

 
     
     
 
 
 
 
   
     
     
   
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