O coordenador da unidade São José dos Campos da Faculdade IBTA, José Demísio Simões da Silva, é o entrevistado dos alunos do quarto semestre de Análise de Sistemas de Informação, Sérgio Antônio do Nascimento e Anderson Clayton Gomes de Aquino.
Confira a entrevista que girou em torno de resultados práticos de temas tão polêmicos e, até um tanto quanto desconhecidos do grande público, como inteligência artificial e redes neurais.
Sérgio Antônio e Anderson Clayton - O senhor é especialista na área de inteligência artificial e redes neurais, temas bastante extensos e interessantes. Explique, por favor, como o senhor definiria cada um deles e como se co-relacionam.
José Demísio- Há definições diferentes em linhas de pensamento distintas e muitas envolvem considerações sobre a capacidade de sobrevivência demonstrada pelo poder de adaptação a diversas condições ambientais apresentadas pelos animais. Certamente, o conceito de inteligência é polêmico. Os autores de livros de Inteligência Artificial (IA) têm diferentes pontos de vista. Em termos de aplicações, a IA é uma área que busca desenvolver modelos cognitivos, que permitam a criação de sistemas computacionais com capacidade de realizar tarefas de forma semelhante a um ser humano, para explorar o poder de adaptação e dar maior flexibilidade aos sistemas computacionais, nos processos de tomada de decisão (o ser humano toma decisão sob incerteza). A modelagem de sistemas de IA exige: representação do conhecimento (dados e informações do domínio), métodos de raciocínio (métodos e formas de trabalhar o conhecimento) e aprendizagem (forma de agregar novos conhecimentos). A aprendizagem é a que melhor pode caracterizar a inteligência, dado que é a forma mais natural de adaptação. Os sistemas concebidos usam grandes volumes de dados e métodos de resolução de problemas, codificados em modelos de representação de conhecimento. Um exemplo de método é o Sistema Especialista, baseado em Regras de Produção. A programação de sistemas de IA pode ser feita por linguagens diversas incluindo as ditas declarativas (Prolog, Lisp, Clips etc). As Redes Neurais Artificiais (RNA) são modelos computacionais, paralelos e distribuídos, usados para conceber sistemas computacionais que emulem o funcionamento neurofisiológico do cérebro. São consideradas como técnicas de IA, porque dotam os sistemas com capacidade de adaptação por meio do poder de aprendizagem que as caracterizam. As RNA baseiam-se no conceito fundamental do cérebro ser constituído por unidades de processamento simples (o neurônio), cujo funcionamento simplificado constitui-se da emissão de um pulso ou não, em função do agrupamento de informações no núcleo celular, que computacionalmente é representado pela combinação linear das informações fornecidas ao neurônio artificial. A aprendizagem acontece com a adaptação dos pesos sinápticos, que emulam as sinapses biológicas. Há diferenças entre os sistemas desenvolvidos com outras técnicas de IA e aqueles concebidos usando RNA, principalmente no sentido de que as RNA representam o conhecimento de forma compacta, embora não permitam que um humano consiga rastrear seus processos de tomada de decisão, como se faz com os sistemas que utilizam outros métodos de IA.
Sérgio Antônio e Anderson Clayton - A todo instante, vemos filmes de ficção abordando o tema Inteligência Artificial sempre de forma fantasiosa e perigosa. O senhor poderia nos contar quais aplicações reais já existem utilizando tal tecnologia?
José Demísio - A indústria cinematográfica também tem a função de divulgar os avanços alcançados pela humanidade. Hoje existem vários meios de divulgação, além dos considerados científicos de acesso restrito, que informam a existência das tecnologias. O cinema informa, numa linguagem acessível ao grande público e apresenta cenários que contextualizam o ser humano, com suas vantagens e desvantagens, segundo a interpretação dos diretores, permitindo a oportunidade para a crítica. As interpretações podem ser distintas como por exemplo os filmes "Inteligência Artificial" e o "Homem bi-centenário". Elas não focam as técnicas e métodos de IA, mas a convivência do homem com as máquinas inteligentes e as suas angústias. O lado positivo é a popularização das tecnologias e modelos de IA como meios que possibilitam uma inserção mais rápida dos avanços nos meios produtivos. A IA é utilizada em várias aplicações como controle, visão computacional, processamento de imagens, diagnóstico, finanças, lingüística, educação à distância, agricultura, sistemas periciais, jogos, reconhecimento de caracteres, entre outras. Por exemplo, há fabricantes que utilizam IA no controle de elevadores, máquinas de lavar e máquinas industriais. Bancos utilizam no auxílio à decisão de concessão de empréstimo bancário e também em sistemas para identificação automática de fraudes bancárias. Empresas de consultoria no mercando financeiro utilizam sistemas inteligentes para análise de mercado. Há aplicações industriais que usam IA para controlar a temperatura em fornos siderúrgicos e a qualidade de produtos. Na área de diagnóstico, a agricultura usa IA na identificação de pragas. Alguns sistemas especialistas auxiliam os médicos nos processos de identificação de doenças. Na área de segurança da informação, podem ser usados na detecção de tentativas de intrusão em sistemas em rede; geração de chaves públicas para criptografia etc. Na área espacial, sistemas inteligentes são usados na análise de imagens de satélite, nos processos de previsão climática. Foram citadas algumas aplicações, de maneira genérica, mas existem muitas outras. A aplicação de maior projeção é a robótica. Muitos processos utilizados nestas plataformas já são concebidos sob o paradigma da IA. Como essa tecnologia trata de técnicas e modelos, sua eficiência só pode ser medida em função do desempenho dos sistemas computacionais desenvolvidos, por isso o julgamento de inteligência em máquinas ainda depende da observação e admiração humana, exploradas nas produções cinematográficas.



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