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A miragem inflacionária |
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Desde 1999, a Política Monetária no Brasil é centralizada no Sistema
de Metas da inflação medida pelo IPCA/IBGE.
O mecanismo do Sistema de Metas consiste basicamente em elevar
a taxa de juros Selic sempre que o centro
da inflação tender a ultrapassar o teto da |
meta. Seria um instrumento eficiente se a escalada dos preços caracterizasse uma inflação de demanda.
Contudo, os aumentos de preço no Brasil são tipicamente decorrentes de inflação de custos. São causados por variações exógenas dos preços administrados, especialmente aqueles regidos por contratos de correção automática dos contratos por índices de preços e variam independentemente do consumo privado. Os preços privados-livres, cuja elevação caracterizaria inflação de demanda, sofreram proporcionalmente uma menor variação no período 1999-2006.
Decompondo-se o IPCA, dos 76,5% da inflação acumulada no intervalo 1999-2006 (até junho), 41,7 p.p. equivalem ao efeito direto dos preços administrados. Como os custos privados-livres são contaminados pelos preços monitorados, o aumento médio destes causou 22 p.p. de aumento direto, em um cálculo conservador. Em uma estimativa mais realista, na qual os preços administrados pressionam o custo da mão-de-obra, o impacto sobre o IPCA seria de mais de 90 p.p. Disso resulta, de fato, numa deflação de 13,6% dos preços privados-livres, ao longo de 6,5 anos.
Deduzido o efeito direto dos preços administrados sobre o IPCA, a taxa de juros Selic esteve sobrelevada em pelo menos 3,22 p.p., em média, no período 1999-2006, representando R$200 bilhões na dívida líquida interna, considerando-se o impacto da Selic na relação Dívida-PIB. Ademais, descontado o efeito direto dos preços administrados sobre a Selic, remanescem apenas os efeitos das incertezas de mercado, os quais podem ser representados por um fator de risco. Nessa simulação, o impacto da Política Monetária sobre a dívida pública foi de extraordinários R$545 bilhões.
Tais cifras representam o custo social dos 6,5 anos desta Política Monetária: entre R$200 bilhões e R$545 bilhões. Cifras que seriam consideravelmente maiores se descontados os impactos dos preços administrados nos custos privados-livres. Os maiores beneficiários dessa política são as instituições financeiras, que detêm o maior percentual dos títulos da dívida pública. Só em 2005, os 6 maiores bancos somaram R$16,2 bilhões em lucros líquidos. À custa do cidadão comum que pagou por isso por meio dos inúmeros tributos.
Portanto, os executores da Política Monetária não atacam as causas da inflação – os preços administrados. Atuam apenas sobre os efeitos de uma miragem inflacionária: combatem uma inflação que não existe, embora virtualmente os preços aumentem. O Brasil já atravessa a terceira década perdida, na luta irracional por um precário controle da inflação, que tem condenado o país ao constante atraso socioeconômico.

Fabrício Pessato Ferreira é coordenador da Graduação em Gestão Financeira da Faculdade IBTA, unidade Campinas. Também é Mestre em Economia pela UEM.
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Dezembro 06
- Edição 11 |
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Fabrício Pessato Ferreira, coordenador da Graduação em Gestão Financeira, da unidade Campinas, discorre sobre a política financeira
no Brasil. |
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